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Uma parte que não tinha...



O céu parece de algodão.
O dia morre. Choveu tanto!
As minhas pálpebras estão
Como embrumadas pelo pranto.
 
Sinto-o descer devagarinho,
Cheio de mágoa e mansidão
A minha testa quer carinho,
E pede afago a minha mão.
 
Debalde o rio docemente
Canta a monótona canção:
Minh'alma é um menino doente
Que a ama acalenta mas em vão.
 
A névoa baixa. A obscuridade
Cresce. Também no coração
Pesada névoa de saudade
Cai. Ó pobreza! Ó solidão!
 
Cantilena
(Cinza das Horas)
Manuel Bandeira
 
 
"Que dias que na alma me tem posto..."
 


Escrito por Suka às 15h47
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À primeira pista
 
Chuvas intralabiais
deixam as pernas
bambas
 
sinfonia e sambas
se entrelaçam na festa
 
o coração
mestre-sala da febre
perfomance de beija-flor
 
umidescências íntimas
afloram os poros
 
o perfume que sobe
faz sabor em todos os sentidos.
 
 
Cuti
 
 
 
Então... é isso!!!


Escrito por Suka às 15h04
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Outra canção
 
Não me deixem ir tão só,
Tão só, transido de frio...
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio!
Como alguém que adormecendo
E umas vozes escutando,
Nem soubesse que as ouvia,
Nem soubesse que as ouvia
Ou se as estava sonhando,
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio:
Vozes de amigo calor
Na lenta e escura descida
Como lanternas de cor
E aonde mais longe eu me for
(Quanto mais longe da vida!)
A borboleta perdida
Da tua voz, pobre amor...
 
Quintana...
 


Escrito por Suka às 16h42
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História mágica
 
Era um perfume tão pesado que os corpos se amolentavam, rendidos, e uma névoa de banho de vapor esfumava o contorno das flores de pétalas abertas, dos frutos enormes, que apreciam prestes a cair. Não se sabia se eram cobras dormentes, ou lianas semivivas, aquelas coisas pendidas das galharias... Pássaros não se viam, nem sáurios furtivos, nem grandes ou pequenos quadrúpedes. Mas gritos misteriosos, que a gente não podia identificar, feriam de quando em quando os ouvidos, acordando-os o torpor em que os adormecia o zumbir ininterrupto dos insetos. Os pés chapinhavam, como em barro, no musgo verdoengo em que tapeava o chão.
 
Caminhávamos, arquejávamos, sem dizer palavra. O nosso guia e rei seguia à frente, invisível, sua presença acusando-se (nas horas de maior angústia, parecia) por um agitar frenético de guizos. Um dia, não mais o escutamos e cada qual, com um ingrato alívio, seguiu o seu próprio caminho. Cada qual se extraviou, sentou-se, enfim, para morrer.
 
E cada um morria pensando invejosamente que os outros houvessem encontrado alguma coisa, uma fonte de virtudes nunca imaginadas, uma princesa, um mágico, algum Deus ainda bárbaro ou no seu mais adiantado estágio, mas sempre um deus, mas sempre alguma coisa. Pensava em tudo isto, sim... e sentia, no entanto, um monstruoso orgulho de morrer sozinho...
 
Mário Quintana
 
 
 
Uma boa forma de começar este blog...


Escrito por Suka às 16h33
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