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Uma parte que não tinha...


Sonhos da Menina


A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?



(Cecilia Meireles)


Escrito por Suka às 23h30
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Dia desses, estava eu com minha irmã em mais um dia repetitivo e monótono. Não costumamos sair juntas, mas nesse dia estaríamos indo ao mesmo destino. Saímos juntas de  casa e no caminho, melhor, no ônibus, conversávamos como duas pessoas normais que aparentemente se entendem. Engraçado isso. Como eu estava em meus dias resfriados, comecei a tossir e com ela ao meu lado eu senti uma vontade incontrolável de sorrir. Doidice. Sempre sorrindo por qualquer coisa. Quase morrendo de tossir e sorrindo. Assim que descemos do ônibus, fomos procurar água para beber e ela pediu um "copinho" que eu sempre levo comigo. Ela bebeu água antes de mim. Assim como todo mundo, ela tem suas manias... e idéias fixas. Uma delas é achar que tudo o que queremos devemos pedir. Se alguém quer algo, deve ir lá e pedir e não ficar esperando que alguém o faça. Concordo em partes com ela. Nesse dia ela sabia que eu queria beber água, ela viu que eu estava tossindo, que eu precisava, mas ela esperava eu pedir o copo para eu enfim beber água. Eu disse a ela que nem tudo que nos pedem devemos fazer e que da mesma forma não somos obrigados a fazer somente aquilo que nos pedem. Devemos tomar certas atitudes e iniciativas, principalmente quando sabemos o que as pessoas esperam de nós. Então eu, não muito feliz, lhe disse algo que não deve ter lhe agradado e ela saiu andando. Instantes antes sorrindo. Agora em "crise". Quando eu alcancei-a, lhe chamei num lugar que dava pra observar a maré querendo encher e as formas rechonchudas das nuvens, e disse: "Olha, a graça gratuita das nuvens...". E saí. Ela depois me chamou e disse: "Depende da graça... quem disse que é das nuvens?". E ficou lá. Eu saí e fui procurar um lugar pra beber água, pensando na graça... De onde vem a graça pra ela? Bem sugestivo isso... Vindo dela principalmente.



Escrito por Suka às 15h41
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Cheio de possibilidades
sou como uma cor
e entre as cores
só o roxo me agrada
e só o azul me perturba
o azul da caneta
da tua blusa
deste papel
e até o azul do céu...
mas o que seria do roxo
se não fosse o azul?
Na dispersão das cores
me encontro:
sou roxo e não existo sem azul
e assim acredito
que com o azul me realizo...

 

 

(Suhelen Aragão)

17/03/2006

19:34h

 



Escrito por Suka às 01h58
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"Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!(...)"

 

Reticências

(Álvaro de Campos)



Escrito por Suka às 22h37
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     Eu, eu mesmo... 
    Eu, cheio de todos os cansaços  
    Quantos o mundo pode dar. — 
    Eu... 
    Afinal tudo, porque tudo é eu, 
    E até as estrelas, ao que parece, 
    Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... 
    Que crianças não sei... 
    Eu... 
    Imperfeito?  Incógnito?  Divino? 
    Não sei... 
    Eu... 
    Tive um passado?  Sem dúvida... 
    Tenho um presente?  Sem dúvida... 
    Terei um futuro?  Sem dúvida... 
    A vida que pare de aqui a pouco... 
    Mas eu, eu... 
    Eu sou eu, 
    Eu fico eu, 
    Eu... 

 

 

(Álvaro de Campos...)



Escrito por Suka às 22h23
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     Às vezes tenho idéias felizes, 
    Idéias subitamente felizes, em idéias 
    E nas palavras em que naturalmente se despegam... 
 
    Depois de escrever, leio... 
    Por que escrevi isto? 
    Onde fui buscar isto? 
    De onde me veio isto?  Isto é melhor do que eu... 
    Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta 
    Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

 

 

Álvaro de Campos

 



Escrito por Suka às 22h16
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                    Função
 
Me deixaram sozinho no meio do circo
Ou era apenas um pátio uma janela uma rua uma esquina
Pequenino mundo sem rumo
 
Até que descobri que todos os meus gestos
Pendiam cada uma das estrelas por longos fios invisíveis
 
E havia súbitas e lindas aparições como aquela das longas tranças
 
E todas imitavam tão bem a vida
Que por um momento se chegava a esquecer a sua cruel inocência de bonecas
 
E eu dizia depois coisas tão lindas
E tristes
Que não sabia como tinham ido parar na minha boca
 
E o mais triste não era que aquilo fosse apenas um jogo cambiante de reflexos
Porque afinal um belo pião dançante
Ou zunindo imóvel
Vive uma vida mais intensa do que a mão ignorada que o arremessou
 
E eu danço tu danças nós dançamos
Sempre dentro de um círculo implacável de luz
Sem saber quem nos olha atenta ou distraidamente do escuro...
 
 
Mário Quintana...


Escrito por Suka às 00h28
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Pátios recheados
de sorrisos infantis.
Árvores repletas
de folhas ressecadas.
Pedras regulares
nas formas das ruas.
Gotas acumuladas
de choro e de chuva.
Sonhos repentinos
de manhã e de madrugada.
Alguém reconhece
nos sorrisos um abrigo...
 
 
 
(Suhelen...)

 



Escrito por Suka às 00h17
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Cantas e a sol e céu com teu canto
tua voz debulha o cereal do dia,
falam os pinheiros com sua língua verde:
trinam todas as aves do inverno.

O mar enche seus porões de passos,
de sinos, cadeias e gemidos,
tilintam metais e utensílios,
chiam as rodas da caravana.

Mas só tua voz escuto e sobe
tua voz com vôo e precisão de flecha,
desce tua voz com gravidade de chuva,

tua voz esparge altíssimas espadas
volta tua voz pesada de violetas
e logo me acompanha pelo céu.


(Pablo Neruda)


Escrito por Suka às 11h35
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"...a graça gratuita das nuvens..."

em: 15/02/2006



Escrito por Suka às 09h46
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Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


(Ferreira Gullar)



Escrito por Suka às 10h55
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Suportar a grandeza deste assombro
a constranger este espírito
cheio de palavras
diante do milagre:
rastejar entre jardins
e no porvir ganhar asas
ao sair do casulo
perdendo-se subjacente às nuvens.
Outrora perdia-se entre as maldades humanas
tão próximas de si
a pisotear outros seres
agora encontra-se contemplada
por aqueles indivíduos
que costumam esmagar os que lhe são parecidos
ainda que o êxtase deste instante
não dure o suficiente
para que alguém responda:
quem pintou a lagarta?



em 19/02/2006, depois de me deparar com uma borboleta
que pousava em meu quintal...
(Suhelen Aragão)

Escrito por Suka às 09h52
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