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Uma parte que não tinha...


A estante repleta de livros

Corresponde a tudo o que deveria saber.

Conhecer. Ou melhor: fazer.

 

A ilusória claridade de idéias

Corresponde a luz que vem de outra fonte.

Lua. Ou melhor: sol.

 

A satisfatória sensação de alívio

Corresponde ao momento que não volta.

Falar. Ou melhor: calar.

 

A insinuante maneira de olhar

Corresponde ao desejo de sair logo dali.

Cair. Melhor: levantar.

 

 

 

(Suhelen Aragão)

14/04/2006



Escrito por Suka às 13h44
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Ah! Os Relógios


Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

 

(Mário Quintana)



Escrito por Suka às 20h52
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OUTRA IDADE

Entendo a metade das frases e adivinho o resto.
O homem nunca é pedra.
O homem nunca é perda.
Era um Natal chuvoso.
Esfregava o vidro como quem termina uma carta.
O rio encostava na parede para se ouvir.
A memória guarda o essencial e elimina as datas.
A memória não decora sua rua.
Arrumamos a mesa. Colocamos velas e nozes.
Provocamos o fogo como quem amola facas.
Cantamos a noite inteira.
Se faço silêncio hoje, ainda escuto o trincar
dos copos, dos dentes, a gritaria dispersa,
o abraço sem fechar o pouso, o pouco.
Improvisava o que eu seria.
Minhas roupas viveram demais
Para voltar ao meu corpo.



Carpinejar


Escrito por Suka às 17h03
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A estranha tontura

diminui o brilho

e o pequeno filho

revive a tortura

das fases anteriores

com idéias dementes

que de repente lhe invadem

ao desejar sabores

de sonhos e festas

até encher de graça

a dor que não passa

e ao ficar com apenas estas

tristes lembranças

daquilo que não soube

e de tudo que lhe coube

nos seus dias de criança...

 

 

(Suhelen Aragão)

08/03/2006

(pensando no Cauan...)



Escrito por Suka às 15h42
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caem gotas
onde passo
ganham formas
unidas ao chão
mechendo as folhas
então ressecadas
longe dos galhos
-opostas paisagens
 
 
 
(Suhelen Aragão)
pra Silvia...
(05/03/2006)


Escrito por Suka às 21h34
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hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

 

 

   (Martha Medeiros)



Escrito por Suka às 09h48
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CEGA DE NASCENÇA

 

 

Defino as frutas

pelo grito dos feirantes.

Minhas compras sempre quebram

depois de três meses de garantia.

Há uma vida para errar

e uma eternidade

para se conformar com os acertos.

 

A água é cega de nascença.

Ela nos baliza no escuro.

 

 

(Carpinejar)



Escrito por Suka às 13h06
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