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Uma parte que não tinha...


DE UM QUASE POEMA

num canto qualquer
era quase uma noite

e foi numa tarde clara

da satisfação quase rara
louvava a vida

sem perceber que ia mal
de todos os cantos
a palavra quase lhe fugiu

durou certo tempo
e sabia que não tardaria
mas quase nunca falou

da sua boca nunca  se ouviu

porém ele lembrava
que tinha ainda um quintal

quase deu fim ao que escreveu
e enfim pôs-se morte no que fez



Escrito por Suka às 02h52
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Escuta o barulho da chuva
e pensa que ela cai pro teu consolo

Se estiver alto,
feche os olhos e lembra dela

Mas se tiver bem baixinho
silencia teu coração
 
 
 
[porque ninguém consegue (mesmo!) impedir que a chuva caia.]


Escrito por Suka às 23h26
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Seres no canal

Trem das onze eu peguei
Qualidade ele não tem
A essa hora calamitosa
Se dá quem mija bem!

Vi alguém cantando lá,
Mandei calar, não calou
Mandei parar, não parou,
Calei-me eu, fazer o que, meu senhor?

Vão-se nos vagos olhares
Pela janela cega e alterada
Só nos vagões de ninguém
Ela sim, ia calada.

Depois das doze ele cantou
A cor do trem que partia
Leu na voz de quem lhe olhou
Sem nem pensar que doía

Sorrir mesmo, não sorriria!
Determinadamente o que queria,
Determinado não estaria...
Mas ainda que sorrisse, não choraria!

Categoria intrínseca
Seres do bacanal
Apesar de tudo...

...lágrimas de um maquinal!

 

(Márcio Boas/Andréa Costa/Suhelen Aragão) 



Escrito por Suka às 22h37
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CASAMENTO

do silêncio dos olhos em que confessa
um longo tempo conversa

minto
de longo e de terno
no momento eterno

meio sem tempo
nem tão longe

era terno
e era longo
aquele instante

um momento:

disse sim
e nem para sempre durou



Escrito por Suka às 00h25
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CANÇÃO DOS AMANTES MORTOS

Ela era bela e era boa.

        Perdoai-a, Senhor!

Ele era doce e era triste.

        Perdoai-o, Senhor!

Dormia nos seus braços brancos
como uma abelha numa flor.

        Perdoai-o, Senhor!

Ela amava as doces canções,
ela era uma doce canção.

        Perdoai-a, Senhor!

Ao falar era como se alguém
houvesse chorado em sua voz.

        Perdoai-o, Senhor!

Ela dizia: "-Eu tenho medo.
Escuto uma voz na distância".

        Perdoai-a, Senhor!

Ele dizia: "-Tua mão pequena
roçando os meus lábios".

        Perdoai-o, Senhor!

Olhavam juntos as estrelas,
não falavam de amor.

Se morria uma borboleta,
choravam os dois.

        Perdoai-os, Senhor!

Ela era bela e era boa.
Ele era doce e era triste.
E morreram da mesma dor.

Perdoai-os, Senhor!
Perdoai-os, Senhor!

                                              Perdoai-os, Senhor!

 

(Pablo Neruda)



Escrito por Suka às 01h15
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